TÁ BOM PRA CACHORRO

Imagem via Google

A situação crítica diária é quase sempre a mesma. Acordo já passando e tomando café, logo após escovar dentes, claro, que é pra despertar um pouco antes de passar os olhos pelas notícias e ver as novas barbaridades do dia. Por que, sim, recentemente não passamos um dia sequer sem ler algo que nos faça questionar se estamos mesmo acordados ou vivendo um filme roteirizado pelo gênio Stephen King e dirigido pela mente insana e brilhante de Quentin Tarantino.

Começo a rolar a barra de notícias do twitter e tem chamada com pesquisa apontando que aceitação do governo Bolsonaro aumentou, segundo dados. Dados esses que, acho, devem ser aqueles de seis faces, jogados pelo pessoal da redação do jornal que postou a manchete e apostou numa jogatina no maior estilo “se cair de três pra cima a aceitação dele tá boa”. Só pode.

Desço mais um pouco a barra de rolagem e me deparo com o “furo do dia”, a boneca Anabelle, famosa por ser amaldiçoada e possuída e ter inspirado roteiro do filme de terror homônimo, fugiu do Museu que a “abrigava”. Entre memes e muita zoeira, alguns lamentam e parecem realmente acreditar e temer a notícia, que mais tarde foi dada como mais uma das diversas fake news da internet. O que, para mim, foi zero surpresa.

Essas são apenas duas das situações absurdas que vemos no dia a dia fora do comum na internet brasileira. Já tivemos a tentativa de boicote à Natura, levantada pela “família tradicional brasileira” porque Tammy, um homem trans, fez parte da campanha publicitária. Como se não tivéssemos dezenas de problemas reais e de real gravidade para debater sobre. Já tivemos cancelamentos, tantos que não caberiam em um único texto. Sem contar fofocas, que em nada acrescentam em nossas vidas, como as que contam que uma ex BBB está conhecendo melhor o Danilo (ou Dalixo) Gentili e Leo Dias espalhando “notícias” de “pivôs” de separação de subcelebridades. Enfim, nada de novo nas redes sociais das terras tupiniquins.

Tá bom, mas tá ruim, né?! Sou do tempo de uso contínuo da expressão “tá bom pra cachorro”. Que, segundo um texto de Sérgio Rodrigues, a origem estaria na cultura rural brasileira nos momentos de fartura de comida, com a expressão se desdobrando para “comida que sobrou para cachorro comer”. Então, ultimamente em termos de internet e notícias boas tá tão “bom pra cachorro” que estamos quase latindo por socorro.

***

Adquira já meu novo livro, “MONOLOGAY : Crônicas, monólogos e resmungos de temática LGBTQIA+ de um gay”, disponível para Kindle no site da Amazon Brasil. Clique na imagem ao lado para garantir o teu já!

DIA MUNDIAL DE COMBATER A LGBTFOBIA, JUNTOS!

Foto via Freepik

Nem todos sabem, mas dia 17 de maio é o Dia Mundial do Combate a LGBTfobia. É uma data para celebrar nossas diferenças e trazermos para a discussão o preconceito contra esta minoria, contra a nossa minoria. Hoje é um dia marcado históricamente para promover a luta pela causa LGBT e levantar debates e discussões sobre preconceito e crimes de ódio contra os nossos.

A data é referência simbólica da luta pelos direitos de nossa comunidade, uma vez que coincide com o dia em que a Organização Mundial da Saúde (OMS) deixou de considerar a homossexualidade como doença. “A gente comemora o ganho do reconhecimento, mas isso ainda tem que ser apropriado por todos os aparelhos da sociedade para entenderem que a transexualidade, a travestilidade e a homossexualidade não são doenças, mas parte do comportamento humano; é preciso compreender que não é uma opção”, diz Tathiane Aquino de Araújo, presidenta da Rede Nacional de Pessoas Trans (Rede Trans Brasil).

Hoje, em todo o país, acontecem diversas lives (por motivos de isolamento social) promovidas em redes sociais LGBTs e institucionais, com a finalidade promover o orgulho LGBTQIA+ e difundir nossa luta contra preconceito e crimes de ódio contra os nossos. Eventos musicais oline e também debates são promovidos para legitimizar a causa e fazer da data um marco nas redes sociais.

No Ceará, a data é o marco para Semana Janaína Dutra de Promoção do Respeito à Diversidade Sexual e de Gênero, instituída pela lei 16481/17. O estabelecimento desta semana visa divulgar a legislação de combate à Homofobia, Transfobia, Bifobia e Lesbofobia – LGBTfobia, promover o respeito à diversidade sexual e de Gênero, estimular reflexões sobre estratégias de prevenção e combate à LGBTfobia e sobre os tipos de violência contra a população LGBT, como a moral, psicológica e física. É visado também conscientizar a comunidade acerca da importância do respeito aos direitos humanos e sobre os direitos da população LGBT e divulgar os canais institucionais e de denúncias por telefone e apresentar os equipamentos de denúncias e acolhimento no âmbito do Estado do Ceará.

É inegável que esta data é de extrema necessidade e será para sempre. Mas o problema é que não temos nada a “celebrar”, como alguns eventos sugerem. Pois, mesmo com uma porção de direitos adquiridos, o Brasil segue como o país que mais mata LGBTs no mundo. Sim, nem em países onde ser LGBT é crime os índices de morte são tão altos quanto os nossos. Sendo assim, a data é de extrema importância para nossa visibilidade e para que mais gente se volte para a causa, fortalecendo nossos elos contra a barbaridade que é a LGBTfobia. E tu, já divulgaste a causa LGBTQIA+ hoje?

ISOLAMENTO SOCIAL E AFASTAMENTO CONSEQUENCIAL

Imagem via Canva

Os últimos dias e o isolamento social trouxeram a tona muita gente expondo suas opiniões nas redes sociais. Muita gente pró e contra as providências governamentais. Com isso, houve algo que observei de perto, pois aconteceu com muitos amigos e também comigo: o afastamento consequencial.

Trata-se de um afastamento de amigos, família e conhecidos de redes sociais devido ao posicionamento pró ou contra o governo. Algo que ainda é muito delicado e difícil separar e superar. As diferença quando se toma partido, favorável ou não, às atitudes do Presidente gritam mais que os laços que outrora nos uniram, o que é lamentável. E, como consequência surgem afastamentos, por vezes, inesperados.

Sei que não consigo agradar a todos quando me revolto e me exponho em minhas redes sociais, muitas vezes de maneira agressiva, confesso. Mas também sinto que não tem havido mais um meio termo de se relevar o que o outro pensa quanto ao assunto. Tive a experiência desagradável de ver duas pessoas, que estimo muito, deixando de falar comigo devido a nossas divergências políticas. E também houve outro amigo, o qual troquei comentários e fluiu um diálogo, que simplesmente não levou adiante, dexando assim que tivessemos um possível atrito ou apenas entendeu que eu não mudaria meu posicionamento.

Se me exponho na internet com meu ponto de vista, como tenho feito desde 2009 por meio deste blog, do Twitter e do Facebook é porque acho necessário o diálogo sobre o que exponho. Mas nesse isolamento social eu aprendi que não tenho o casco necessário, ou o devido traquejo para ser pessoa pública pois não me calo diante de discurso raso e não sei ignorar respostas negativas quando sei que meu discurso é plausível. O que me leva a não ter certeza se serei o mesmo impulsivo ao me expor como antes.

Mesmo assim, sigo não me achando o dono da uma verdade absoluta e imutável. Sei que ainda tenho muito a aprender, principalmente quando o assunto é empatia e saber dosar as palavras quando discuto sobre política. Mas eu não trocaria elos antigos e duradouros por opiniões rasas, questionáveis e que excluem bom senso e, principalmente, minorias, por exemplo.

Sendo assim sinto que se alguém partiu em meio a essa avalanche de auto exposição crítica é porque já não me é parceiro. Deixemos que fique em um barco separado do meu e siga seu caminho. E que, com sorte, nos salvemos todos do naufrágio. Pois, como tenho visto o andar dos ventos, parecemos apenas estarmos cada vez mais perto da afundar.

VERGONHA ALHEIA: POBRE DE DIREITA

Meme retirado do site humor político.

É muito tenso começar com um título tão polêmico, mas ele não passa do resumo dos meus mais profundos sentimentos atuais: a vergonha alheia do pobre de direita. Fica ainda mais tenso, triste e ridículo quando ele insiste em passar vergonha na internet com frases dignas de sua maior expressão de ignorância e falta de orientação política e conhecimento em história. Aqui vão algumas #VergonhaAlheia

“Quando a toga se corrompe, só a farda resolve”, em outras palavras acho que ele quis dizer que “se a formação não ajuda, o militarismo dever entrar em cena”, é isso que diz o post de facebook de uma pessoa em minha linha do tempo. Abaixo mais uma amiga em comum comenta nesta postagem “verdade”. Detalhe: ambos jamais vestiram uma toga e muito menos entendem o real significado de uma farda, nem acredito que venham a fazê-lo. #VergonhaAlheia

A pessoa que comentou o mero “verdade”, esses dias já havia postado “votei em Bolsonaro mesmo pra meu filho cantar hino nacional na escola, se fosse no Haddad cantaria Pabblo Vittar”. É triste que essa pessoa não reconheça que a Pabblo Vittar é a voz de uma minoria, o povo LGBTQIA+, que morre todos os dias, um a cada 23 horas em nosso país (mais sobre a pesquisa pode ser lido AQUI). Essa pessoa, que acha que fez uma piada, não deve nem saber o que é contribuir para a comunidade de seu bairro, mas entende-se que a ela a visibilidade da drag queen Pabblo Vittar seja algo que “tanto faz ou tanto fez”. Claro, pois ela é hétero, branca, aparentemente bem de vida, não sofre ataques por ser quem é, ou seja, uma privilegiada. Minimizou a Pabblo e assim toda uma comunidade e me ofendeu, sim (embora nem fã da Vittar eu seja), mas não respondi porque acho desnecessário briguinha de facebook. Essa mesma pessoa que, com esse comentário totalmente homofóbico, demonstra gostar de mim, até onde vai a aceitação dela eu tenho minhas dúvidas. Ah, esse deve ser o mesmo tipo de pessoa anti cotas pois acha que brancos e negros tem a “mesmas possibilidades”, vai vendo. #Vergonha Alheia

O pobre de direita que acredita que quem está deste lado é estar do lado do mais fraco é um coitado iludido. Já estive nessa pele onde a falta de conhecimento em história aliada a falta de senso crítico me fazia enxergar apenas a situação política nacional de maneira rasa e, risivelmente, para um pobre, elitista. O pobre de direita é uma piada principalmente para os governantes deste lado pois os mesmos se preocupam apenas com a elite e os empresários. Não, eles não ligam pra quem está empreendendo e começou sua lojinha ou pequeno comércio agora e sim para os grandes nomes do ramo. O pobre é só um “gado de manobra” de toda essa gente. #VergonhaAlheia

Fato curioso: o pobre de direita, na maioria das vezes é aquele que, embora ainda assim seja pobre, não podemos chamar de minoria. Faz questão de dizer que não é pobre, geralmente é hétero, branco e que se contenta em ser um “pobre mais abastado” pois tem carro, casa própria e pode pagar a faculdade dos filhos. Mas, desculpe lhe dizer, se é seu caso, mas tu que és assalariado, aliás todo assalariado é PO-BRE. Detalhe: a casa própria muitas vezes é original do projeto “minha casa minha vida”, o que tá tudo bem. Mas vai entender… #VergonhaAlheia

Não posso também esquecer de citar frases que vão além de “sou contra política de cotas pois acho privilégio para negros”, temos mais belas pérolas como “bolsa família é esmola”, “não precisava criminalizar a homofobia pois é tudo crime igual” e a, talvez, menos sensata de todas “pobre em aeroporto é absurdo”, quase sempre feita por um pobre (de direita) que não se acha pobre e ama uma viagenzinha em suas férias. Desculpa, mas tudo isso não me desce. Como respondi em um tuíte ao meu amigo João (que chamo carinhosamente de Xuão), apenas sorrio e aceno. #Vergonha Alheia

O mais lamentável disso tudo, porém real, é que o pobre de direita não compreende o que é política de direita ou de esquerda. Ele erroneamente apenas adere a pensamentos conservadores e neoliberais (que ele também não compreende), este cidadão absorve das premissas do contexto político um lugar que é seu por osmose. Muitas vezes original da submissão de um contexto familiar, a uma atribulação no espaço de trabalho, a qualquer motivo que não seja a capacidade ideológica, racional e consciente de decidir e de militar.

Eu não excluí de minhas redes sociais as pessoas citadas nesta crônica por terem essa visão política que eu acredito ser pobre e mesquinha. Sou totalmente contra a “cultura do cancelamento” (quando se exclui uma pessoa que comete erro ou a qual temos diferenças). Já fiz isso com uma outra pessoa antes, e até me arrependo, mas a mesma respondia a todos os meus posts sobre política com tom de deboche e eu acredito não sou obrigado. Celebro as diferenças em quase todos os campos da vida. Mas uma pessoa que clama por um “mito” e não percebe que o buraco é mais embaixo e faz parte da classe a qual esse ser “aclamado” não atende, ela merece no mínimo um alerta de “amiga, para que tá feio”.

A GAY “DIREITA”

Conheça a história da gay “direita”

Era uma vez um gay que fazia questão de não parecer gay. Achava que não parecia, quando na verdade todos sabiam de sua natureza sexual e que ele, assim como todo gay, transa com rapazes e gosta disso. Essa gay criticava as gays que davam pinta, as chamadas afeminadas, diminuía quem fosse diferente do que julgava ser “seu tipo de gay”. Afinal, como fazia questão de dizer, ela era uma gay “direita”.

A gay “direita” também se dizia contra a parada gay e parada do orgulho LGBTQIA+. Achava tudo um grande show de exibicionismo, afinal não tem “dia do orgulho hétero”, porque os gays merecem ter um e “esfregar na cara da sociedade” sua sexualidade com um bando de veado cantando Lady Gaga em plena Avenida Paulista e tumultuando um belo domingo de sol?

Essa mesma gay “direita” dizia que respeitava a família. Que o beijo gay em novelas e cinema é desnecessário e que deve-se respeitar a família pois ninguém precisa “impor a sexualidade” pra toda sociedade. Esses eram alguns dos pensamentos deste ser exemplar, a gay “direita”.

Também a gay “direita”, elegeu o candidato que disse que homofobia não existia. Candidato esse que se declarava homofóbico mas algumas gays, assim como a gay “direita”, insistiam em ver como “exemplar”. E como nunca havia sofrido qualquer ato discriminatório, jamais olhou ao redor ou preocupou-se com o todo. Sua experiência lhe bastava.

Acontece que essa gay se apaixonou, por outro gay, claro, e casou. Direito este adquirido pela luta árdua após anos e anos de protestos de quem vai pra parada gay, vai pras ruas e se expõe em nome da comunidade gay. Também lhe foi adquirido o direito de adotar filhos, pois foi batalhado, também de maneira árdua pelos gays que, ao seu ver só sabiam fazer barulho nas ruas.

Um belo dia a gay “direita” foi agredida. O que fazer? É claro, registrar um B.O. como crime de homofobia, pois foi o que realmente aconteceu. Agora, a gay “direita”, adivinhem, recorreu aos direitos todos que foram por anos reivindicados por seus semelhantes. Pelos gays que militaram, fizeram barulho, deram a cara a tapa, pediram por beijo, sim, em novela e cinema. Os mesmos que fizeram parada LGBT por sua visibilidade e pela conquista de tudo, que para uns é desnecessário e que para essa comunidade é direito como ser humano possuir.

A verdade é que eu já estive na pele desta gay, há exatos dez anos atrás. Mas minha inquietude e desejo por informação me moveu a enxergar mais do que o meu próprio umbigo. Ainda bem. O Brasil, e o mundo, está cheio de gente assim e se não fizermos questão de informar e militar, mesmo, continuaremos com esses pensamentos retrógrados perpetuando a sociedade.

Será que agora a gay “direita” entendeu a importância de toda militância? Esperamos que sim e que ela passe pro time dos que fazem barulho e não seja parte dos que ficam em cima do muro apenas se beneficiando da luta dos outros. Afinal, quem cala é conivente e isso é um reflexo de uma ignorância que lutamos muito para ser vencida.