LGBTQIA+ NO DIVÃ

Imagem via Google

Então, doutor, eu nem sei direito por onde começar. É que é tanta coisa. Vou até tentar resumir pra não passar dos nossos quarenta minutos. Se quiser, em alguma parte de meus relatos, me parar para fazer observações, sinta-se a vontade. Afinal, é o senhor o profissional aqui, o senhor quem manda.

As neuras começam pelo fato de eu ser LGBTQ. Sou gay, a maior parte de meus amigos ou é bissexual, ou trans ou é travesti e eu me sinto ótimo, bem acolhido, por isso. Mas sabe como é: toda vez que a gente sai, enquanto todos do nosso grupo não respondem no whatsapp dizendo que já chegaram e estão seguros dentro de casa, eu não relaxo nem durmo.

Quando eu namoro alguém, por morarmos em uma cidade consideravelmente grande, onde transita muita gente e todo tipo de pessoa, eu nunca pego na mão do meu namorado em público. Beijo então, morro de medo desde uns anos atrás quando meu ex e eu apanhamos no shopping por eu acariciar o rosto dele. Voltar pra casa com a boca inchada e dizendo que bati no poste foi meio triste, constrangedor também mentir isso.

Família é aquele lance de “te aceitamos, mas do nosso jeito”, “seja gay mas não seja ‘bicha’, por favor, essas e outras frases que eles não acham que seja, mas é completamente homofóbico. Não entendem ainda que aceitação se dá por completo e abraça o individuo como ele é. O contrário disso é apenas mera tolerância, provavelmente por laço sanguíneo, nada além disso.

Somando essa pressão da família, sempre reluto muito em ser eu mesmo quando tô me arrumando. Por morar aqui, que é um lugar com gente ultrapassada, eu nunca ponho minhas roupas preferidas. Essas eu uso só em ocasiões especiais e na cidade vizinha, que, no bairro onde costumamos fazer happy hour, o povo é mais mente aberta. Aqui eu mal uso roupa colorida, fico no preto e branco e, ainda assim, basta pôr uma calça justa que já olham estranho. Às vezes até tem carro que passa e gritam de dentro: “bicha”. Vai ver deve fazer bem pra quem grita, vai entender…

Se não bastassem essas questões, ainda tem gente que diz que não precisamos ser representados em filmes, livros e séries. Tem gente do governo que diz que não se deve falar sobre a gente pra instruir e orientar ao respeito nas escolas. Vai dando um desgosto de não ser apoiado nem por quem deveria pensar no bem de todos e priorizar os direitos humanos. Tudo isso vai dando um aperto no peito e um nó na garganta.

Acho que é só tudo isso, sabe?! O senhor é só um psicólogo, sei que nada vai poder fazer pra mudar a situação toda. E ainda tem gente que olha pra mim e pergunta: “nossa porquê você parece sempre tão triste?”. Mas ao menos eu estou aqui pra tentar não enlouquecer com isso me sufocando enquanto a igualdade pela qual luto, e muitos chamam de mimimi, não chega. Enfim, já deu quarenta minutos, doutor?

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