O VALOR DA PERDA

Imagem via Google

Há alguns dias, semana passada, perdemos dois grandes nomes da cultura nacional, Moraes Moreira e Rubem Fonseca. O primeiro, músico, marcou, e ainda marca, a vida de todos os apreciadores de MPB com sua banda, os Novos Baianos. O segundo foi escritor multipremiado por algumas de suas obras como Agosto e O Seminarista. O que ambos têm em comum? Deixam um legado na história cultural brasileira. Mais do que isso, movimentam, agora que nos deixaram, mais pessoas a conhecer e consumir suas obras.

Não é nova a máxima “só se valoriza depois da perda”, assim é para tantas coisas na vida. Emprego, relacionamento, parente, amigo, tudo pode estar lá, “parado” e estamos bem se lembrarmos que o temos e podemos seguir nossas vidas. Mas, no momento em que nos vimos sem um “bem”, somos afetados de tal maneira que, na maior parte dos casos, nossa primeira reação é valorizar tudo que foi vivido enquanto aquilo ainda nos pertencia.

Não, isso não é condenável, é humano. Não posso simplesmente dizer que viver esse luto alimentando a preciosidade do quanto nos foi especial em vida é um erro. Alías, creio eu, é muito bonito e saudável que revisitemos o melhor e somente isso daquilo que ou de quem se foi. Deixemos para trás toda mágoa ou sentimento ruim e tenhamos uma visão voltada para o quanto aquela experiência nos enriqueceu.

Quem me conhece sabe bem que minha escritora favorita, e maior inspiração, é a saudosa Fernanda Young. Quando, em 25 de agosto de 2019, Fernanda Young nos deixou, dois dias após ter me dado a alegria de me seguir no instagram, muita gente relembrou quem ela é (sim, no presente pois ela sempre será). Consequentemente muita gente passou a querer mais de sua vasta obra literária. Eu mesmo, busquei muito mais assistir as séries as quais ela foi roteirista. Até me assustei com um livro que comprei por R$ 59,90, no mês de lançamento, que passou a custar R$ 249,40. Esse aumento de procura me chateou? Não, como fã eu gosto muito que mais gente queira ler o que leio e admiro. O único ponto triste foi Fernanda receber seu primeiro prêmio literário, o Prêmio Jabuti de Crônica, apenas após sua partida. Nos provando que só se valoriza após a perda. A artista levou com ela a tristeza de, mesmo com muitos livros públicados em mais de vinte anos de carreira, nunca ter sido reconhecida pelo alto escalão da literatura, dor que ela já havia citado em algumas entrevistas.

O que deve ser refletido em momentos como este, observando atentamente, é que devemos valorizar tudo que nos é precioso enquanto podemos. Se tu curtes um artista (músico, escritor, banda, ator) compartilhe seu conteúdo, comente em seus posts, principalmente se for alguém do meio independente. Não deixe pra depois, também, valorizar teu trabalho e dar teu melhor todos os dias para que tenhas destaque. Em meio a esse caos todo, nunca se sabe quando o fim chega. Aquele amigo que tu adoras, mas nunca tinha tempo para conversar decentemente pode ser chamado em vídeo ou áudio nesse período de isolamento. E, principalmente, se tens pais e avós vivos, lembre-os com mais frequência de seu valor e o quanto os ama.

A vida é curta e estamos todos ocupados correndo atrás de pôr nossa vida em ordem, eu sei. Mas aquele comentário na foto de alguém com palavras positivas e motivadoras, o “algo a mais” no trabalho, a chamada de vídeo finalizada com “te cuida, fica em casa, eu te amo” ou qualquer ato que tu possas ter, que saibas que valoriza algo ou alguém, não deve ser deixado para amanhã. “Porque se você parar pra pensar, na verdade não há…” já cantava o poeta.

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