A VIDA PELA JANELA

Imagem da janela da sala.

Da janela da sala, enquanto executo meus trabalhos, dou uma escapada de meu dia para adentrar em um mundo desconhecido e por vezes fascinante, a vizinhança. Nada demais acontece na maior parte do tempo, mas já é o suficiente para que eu saia da minha realidade e visite possíveis realidades de quem transita pela rua que minha vista enxerga pelo vidro.

Nem sempre os rostos que vejo são os mesmos. Nem sempre quem transita mora perto. E, quase sempre, o que vejo é algo completamente comum ao dia a dia, se não fosse por minha mente criativa. Minha mente cria histórias para as pessoas que passam, param para conversar entre si, andam de bicicleta com expressão de realização no passeio ou estacionam o carro para ir até o mercado ou a papelaria bem próximos daqui. Tudo é muito comum, mas meu eu criativo insiste em criar “um porquê” alternativo destas cenas acontecerem.

Um carro que para e aguarda por dois minutos, que parecem uma eternidade, e de repente chega um jovem, entra e o carro arranca. Existem muitas possibilidades ali. Pode ser que seja um pai que esperou seu filho vir do mercado ou da papelaria da esquina. Também pode ser que o jovem seja um sobrinho que veio de outra cidade, desceu na rodoviária, que também é muito próxima, e encontrou o familiar para passar o final de semana em sua casa. Talvez o moço seja o namorado do homem no carro, talvez o amante que mantém relacionamento escondido da mulher e, por isso, encontraram-se em uma esquina não tão evidente, mas próxima de tudo. Muita coisa pode ser.

O fato é que todo dia a gente pode observar pessoas e suas vidas, seus trajetos e trejeitos e criar variadas histórias para que possamos sair do tédio habitual de estarmos confinados. O que importa é que muito se aprende observando, sem julgamento, e criando motivos de ser e estar das situações mais banais a situações inusitadas. A vida segue e cada pessoa que transita pela rua nem imagina que criei uma vida diferente para ela. Agora vou digitar o ponto final, pois já me distraí o suficiente nesses vinte minutos em que escrevo e observo a vida pela janela.

COMO ASSIM VOCÊ NÃO…?

Imagem via Google

Um fator extremamente interessante na vida é o “cagar de regra” de gente que acha que, por exemplo, se tu lê bastante tu, tu tens a obrigação de ter lido grandes clássicos ou determinados autores (como Machado de Assis), que são mundialmente aclamados. Ou, por tu ser cinéfilo tu tens a obrigação de saber daquele filme alternativo que tem figurino impecável e que foi febre na Bulgária. Esse tipo de “tu tinha que saber/isso” também acontece, e muito, no mundo LGBTQIA+.

Cobranças comuns como: “como assim, tu não sabe quem é a fulana, que fez o meme tal?”, “sério que tu não conhece tal drag?”, “diz que é veado, mas não é fã de Lady Gaga (substitua aqui Gaga por qualquer Diva Pop)…”, “é gay, mas não gosta de Rupaul’s Drag Race?“, “é LGBTQ+, mas não sabe todas as benditas letras da sigla da comunidade…” são comumente usadas contra a gente. Tanto vindas de gente de fora do meio, quanto de gente LGBTQIA+. Cuidar da própria vida a pessoa não quer, né? E vamos já deixar bem claro a resposta pra todas essas perguntinhas: não, nem sempre sabemos de tudo e não, não somos obrigados a saber de coisa alguma.

Ninguém nasce de pacto feito com conhecimento em cultura LGBTQ+ em geral. Aliás, ninguém tem obrigação com coisa alguma, seja dentro ou fora do meio LGBTQ+. Muita gente também se esquece de uma palavrinha simples: acesso. Sim. Embora estejamos vivendo uma era altamente globalizada, onde quase todo mundo parece ter acesso a internet e todas as informações o tempo todo, muitos ainda não têm essa facilidade. Também muita gente não faz questão de saber o que rola no meio. E tá tudo bem. É um direito que se tem.

Por algum acaso todo fazendeiro entende absolutamente tudo sobre animais, rações e afins? Não, ele sabe o suficiente sobre seus animais, aprendeu como lidar com eles e como lidar com sua própria fazenda. Algum dono de livraria vai te indicar todo e qualquer livro de seu estabelecimento porque leu título por título? Impossível. O livreiro pode até saber o lugar de cada livro na estante, tanto quanto pode ser um grande leitor e ter boa parte de seu estoque na sua lista de lidos. Mas, saber tudo, além ser fora de cogitação é desnecessário.

Nosso dever realmente não existe. Porque ninguém “TEM QUE SABER/FAZER” porra alguma. Claro que seria muito legal se todos da comunidade LGBTQ+ fossem empenhados em desmistificar todos os preconceitos oriundos de uma sociedade ainda muito ultrapassada e pouco inclusiva. Mas, aí vem a questão de querer ou não fazer parte da militância, o que rende outro bom texto e, então deixarei de lado. O foco aqui é lembrar que, quando alguém vier com “como assim você não isso ou aquilo?” tu tens toda liberdade de responder: “eu não, não mesmo e tô nem aí” (inclua uma figurinha do meme da menina na janela gritando “tô nem aí” que fica ainda mais interessante a resposta).

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FOCO EM SER BOM OUVINTE

Dia desses conversava com uma pessoa e, após contar algo que eu queria muito contar, veio como resposta o bom e velho “ah, mas comigo…” Até aí tudo bem, é uma das coisas mais comuns a pessoa responder contando algo parecido que aconteceu ou seu ponto de vista. O problema foi que, a conversa tornou-se apenas um desabafo constante e interminável da pessoa. E eu, que foi quem iniciou o diálogo na intensão de desabafar algo, não tive mais espaço e nem vontade de continuar falando sobre o meu caso.

É muito comum e eu mesmo já fiz isso várias vezes. Sempre fui do tipo que “puxa a sardinha pro seu lado”. O problema é que esse ato, na maior parte das vezes imperceptível, faz com que o outro se sinta tão desconfortável pela segunda pessoa ter tomado conta do assunto com o seu compartilhamento de caso que nem dá mais vontade de continuar o desabafo. Quando acontece vez ou outra é compreensível. Mas tem gente que não percebe e faz isso sempre.

Quando aconteceu comigo foi exatamente com uma pessoa que já faz isso com muita frequência. Ao menos mais do que eu gostaria que fizesse. E, óbvio, eu não tenho coragem, embora tenha intimidade, de dizer “fulano, já percebeu que toda vez que alguém te conta algo tu dominas o assunto e torna tudo sobre ti, deixando a pessoa totalmente sem jeito de dar continuidade ao assunto?”.

Meus amigos sabem o quanto eu sou do tipo que comete “sincericídio”. “Morro pela boca” com muita frequência. Se tem acho algum incômodo em alguém eu já saio dizendo para deixar claro que ela pode dar uma melhoradinha. Óbvio que não faço isso com quem não tenho o mínimo de conectividade para saber que a pessoa vai ficar ok por saber que é uma “dica amiga”. Mas tem gente que, talvez por eu gostar muito da pessoa, costumo ir deixando alguns pontos incômodos de lado. Afinal, eu estou longe de ser perfeito. O problema é quando a pessoa torna a repetir até que vire um pequeno fardo no convívio. Como é o caso de “roubo de cena” diante do diálogo.

Mas, ao mesmo tempo em que nessa conversa eu fiquei chateado com a pessoa, eu fiquei feliz comigo. Através dessa analise percebi o quanto tenho feito isso muito raramente ou repondo a pessoa com algum comentário rápido, de forma a incentivar que continuemos focados no caso dela. Pois quando uma pessoa me procura para contar algo, o que ela quer é ser ouvida. Se ela der espaço, solicitando uma segunda opinião ou que eu conte se já passei pelo mesmo, aí sim, bora abrir a boca. Em primeiro momento, que foquemos em sermos bons ouvintes, antes de sermos ladrões de desabafo alheio.

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LGBTQs E A CRIATIVIDADE

Imagem via freepik

Se tem algo em comum que tenho observado em meus amigos LGBTQIA+, é que, mesmo trabalhando em áreas diversas e alguns nem ao menos lidando com arte, todos somos muito criativos. Todos mostramos uma habilidade ímpar em inovar, seja no que for. Às vezes é na decoração de casa, no jeito de vestir-se, nas fotos nas das redes sociais ou até mesmo fazendo uma gambiarra no dia a dia. Mas porquê o povo da nossa comunidade parece ter um ganho maior quando o assunto é criatividade? Comecei a pensar sobre e elaborei minhas teorias.

O povo LGBTQ vêm da exclusão e de lições da exclusão causada por uma sociedade preconceituosa e que nos deixaram por anos à margem da sociedade. Desde muito cedo uma pessoa excluída aprende que, se ela quiser destacar-se e ir além, ela precisa de conhecimento. Não é a toa que os LGBTQs que conheço leem muito mais do que os héteros. Sendo assim, nós temos essa tendência a buscar conhecimento, o que facilita em tudo na vida.

Adiciono à minha teoria o fato de que desde a infância, a criança LGBTQ já gosta de referências. Aquela coisa zoada por muitos da criança viada que gostava de Xuxa, Spice Girls, Sandy & Junior, Rouge ou RBD pode ser muito mais do que um encantamento, pois torna-se referência. Uma pessoa que se alimenta de diversas referências tem muito mais capacidade de criar algo. Afinal, a criação e a criatividade em si não surgem do nada, são a soma de diversos fragmentos do que vamos guardando no subconsciente e, unindo tudo, temos uma ideia que pode fazer nascer algo novo e inusitado.

O assunto pode ir muito mais adiante, se levarmos em conta que desde cedo, nós LGBTQs, aprendemos a lidar com a curiosidade, começando por nós mesmos. Geralmente nos questionamos muito cedo e temos de nos entendermos para, então, entendermos o mundo. Por isso, desde pequenos somos mais curiosos e queremos aprender mais sobre nossa sexualidade, gênero, sobre nossa comunidade e, depois disso, queremos saber de tudo um pouco. As dificuldades de ser um LGBTQ nos tornam abertos a aprender como “nos virarmos” no mundo e em uma sociedade de visão limitada.

Não, não somos seres superiores. Mas creio que boa parcela dos LGBTQs é muito mais consciente de si, de seu lugar no mundo. Consequentemente essa pessoa tem uma visão melhor da vida e da sociedade. Assim, não é difícil ser uma pessoa mais aberta ao novo, ao desconhecido e ao conhecimento. Acho que todos esses prós somam-se a nosso favor. E, assim, seguimos sendo geralmente mais criativos e, possivelmente, originais. Quem bom!

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SE NÃO EXISTISSE, QUE FALTA TU FARIAS?

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A pergunta título dessa crônica é de Mário Sérgio Cortella e me bateu forte e vem de encontro com pensamentos que tive nos últimos dias. Me questiono seriamente sobre qual o meu legado, reflito sobre o que tenho deixado de mensagem em minha passagem por esse mundo. E, acredite se quiser, eu tenho ficado orgulhoso de ver o quanto a resposta é positiva.

Creio que todos deveríamos, ao menos uma vez por semana ou por mês, nos questionarmos se o que estamos colocando pra fora condiz com o que queremos receber. As máximas “quem planta colhe” e “tudo que vai volta” são reais e devem ser nossos combustíveis ao refletir antes de falar e, principalmente, agir.

Tu tens plantado amor? Creia, o amor retorna e te transborda. Tu tens espalhado sorrisos? Eles retornarão em formas inimagináveis. Tu te propõe a estender a mão ao próximo? Assim a vida, o Universo, a luz superior (ou seja lá como tu chamas o “algo maior”) fará por ti em teus momentos de necessidade. Que mais um clichê seja dito, afinal é clichê pois realmente funciona e se aplica: “a vida é um espelho que tudo reflete”. E é óbvio que o mesmo se aplica para atos de má fé ou, até mesmo, aquela “atitudezinha” feita no calor do momento sem pensar em consequências ou em machucar alguém. Tudo tem seu peso.

Em meio a tanto “toma lá dá cá”, repense: que falta fariam tuas atitudes no mundo se tua vida não existisse? Talvez tu não seria o amor da vida de alguém. Talvez tua família seria menos unida. Talvez tu não ajudaria muitas pessoas por meio de tua profissão. Talvez tua família não teria aprendido a conviver e respeitar as diferenças. Não sei se acredito que tudo tem um porquê de ser, mas creio que se vivo é porquê há um propósito. Então, talvez se eu não vivesse eu não te faria pensar sobre isso enquanto lê estas palavras.

MATURIDADE É SUPORTAR SEM SE ABALAR

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A gente nunca foi avisado que a vida adulta traria mais desejo pela anarquia e pela rebeldia, mas as mesmas seriam encobertas por uma onda de conformismo com tudo aquilo que está acima da gente. Antes da maturidade é só “eu vou tacar fogo nisso tudo, Deus me livre esse conformismo”. Ao menos pra mim foi assim. Já depois de muitos tombos e da consciência tardia dos trinta, agora sou mais “então viver é isso, ok, posso conviver com essa insatisfaçãozinha”.

Ninguém nos disse que a vida adulta seria pior do que adolescência e muito mais revoltante. Afinal, a gente tem muito mais consciência. A gente já sabe que errar é humano, mas as inconsequência batem na porta assim que a gente descuida. Então a gente não caminha mais com o peito à mostra pra levar flechas, seja da vida ou do cupido. A gente se esquiva de tudo, ou quase, pra não ser pego de surpresa ao virar uma esquina desconhecida.

Embora a gente não tenha sido orientado a ser mais responsável sentimentalmente, adotamos isso. Ao menos a maior parte de nós. Aprendemos a lidar com o sentimento na marra. O básico do básico, sabe? O “tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas” deixa de ser uma frase bonita pra pôr em legenda de foto ou tatuagem brega e vira algo a se pensar bem antes de se envolver com alguém.

Quando mais novo a gente pensa: “depois dos trinta eu vou estar vacinado com essas coisas e não vou chorar mais”. Ah, como a gente se ilude que a maturidade é o fim da dor. Na maturidade dói até a saudade dos tempos da falta de maturidade. Pois era quando a gente não pensava tanto, dormia mais e melhor e não pensava tanto no relógio, o bendito ditador do tempo e do quanto temos de render no compasso dele.

Mas não, isso tudo não são pensamento negativistas de que ao crescer a gente só encontra o pior da vida. É pra lembrar que mesmo adulto a gente chora no banho, chora quando se sente só, se sente rejeitado quando não nos desejam, se frustra quando as coisas não fluem no nosso ritmo e se desespera quando surge algo que nos abala, mesmo sabendo já que tudo é passageiro.

Mesmo com todos os dissabores da “vida de gente grande”, a gente já sabe que tem idade e maturidade pra lidar com tudo que nos é enviado pela vida. Afinal, vamos aqui de um bom e velho clichê, pois clichês salvam em nos resgatar boas mensagens: nunca recebemos mais do que podemos suportar. E talvez maturidade seja isso mesmo, suportar sem se abalar ou se abalando pouco.

Ouça agora o novo episódio de meu podcast com dicas de livros LGBTQIA+, o Estante LGBT, no player abaixo.

O PODER DAS PALAVRAS

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A vida me ensinou, tanto como escritor quanto como pessoa, que as palavras realmente têm poder. Sim, eu acredito que quando colocamos palavras pra fora estamos lançando ao universo e isso faz com que, bem ou mal, a palavra se potencialize para uma possível realização. Para uns pode soar um tanto quanto místico, mas para mim é bem simples. Ultrapassar a barreira entre pensar e falar tem um custo muito alto. Isso me lembra de uma frase que aprendi no paganismo: “cuidado com o que desejas, tu podes ter o azar de conseguir”.

Desde cedo eu vi as coisas acontecerem para mim, e muita gente ao meu redor, pelo poder da palavra. Seja mentalizando e depois repetindo como mantra ou pelo poder da oração, que é a palvra direcionada a uma força maior, chame de Deus, Universo (como eu prefiro), luz ou seja lá o que tu acreditas. O fato é que uma vez vendo isso se dar, eu comecei a usar a meu favor. Por isso, até evito ouvir músicas tristes e negativasr. Ao ouvir eu canto e jogo pro universo uma energia que não está conectada com meu propósito. Isso é tão real que, quem me conhece sabe, eu raramente ouço música lenta ou triste, salvo uma ou outra da Alanis Morissette ou da Madonna (minhas maiores ídolas).

A palavra se estendeu além da superstição quando falo que as palavras mudaram minha vida. Pois eu tornei as palavras minha fonte de renda. Embora nem sempre tenha esse pensamento de comprometimento e responsabilidade com minhas palavras, eu soube fazer delas muito mais do que minha forma de expressão e hoje elas são meu ganha pão, basicamente. Não vivo da literatura, mas produzo textos de cunho publicitário para redes sociais, escrevo para blogs e escrevo até livro para terceiros por encomenda, como ghost writer (escritor que escreve como “fantasma”, recebendo para que o contratante ou outra pessoa assine pela obra).

Ao longo da vida aprendi o poder da palavra mal intencionada e o quanto as palavras podem exercer impacto na vida de alguém. Houve um tempo em que as palavras de outra pessoa, uma professora do curso de Letras, quase me fizeram desistir da escrita. Professora Clarice uma vez disse “por favor, nunca diga a ninguém que fostes meu aluno, pois tua redação está horrível e talvez jamais se forme em Letras assim”. Mas isso não foi uma nota em vermelho escrito em uma prova, foi um dizer em um tom debochado de voz e volume alto na frente de mais de trinta colegas de aula. De fato, não me formei em Letras, mas em publicidade e acabei me tornando redator e em 85% dos meus trabalhos hoje é a minha redação que faz cair dinheiro em minha conta. Também é ela, a escrita, que me levou a ter meu primeiro livro lançado sem precisar investir um centavo nisso. As palavras desta professora não me desmotivaram, embora até poderiam, pois foi pesado e duro ouvir isso. Porém, três anos depois comecei meu blog, que também me fez chegar mais longe escrevendo e faz parte de meu portfólio.

Confesso que as palavras de Dona Clarice me atormentaram por anos toda vez que sentava pra escrever. Mas hoje elas me fazem lembrar que realmente eu talvez não conseguisse me formar em Letras nem se tentasse. Mas sei que hoje sou formado em persistência, em me reconstruir quando o meu mundo desaba e em tornar minhas experiências literatura e fazer com que gente que eu nem conheço compre meu trabalho e me envie uma mensagem linda em meio à um dia ruim ou ao caos da quarentena, o que me emociona e me motiva ainda mais.

Acho que me formei em um estrategista de palavras, que escreve e reescreve pra que tudo faça sentido e, ao final do texto, eu me sinta realizado com o que está escrito. Também posso dizer que me formei em avaliar o peso e poder das palavras. Seja as minhas nos outros, usando meu texto com responsabilidade. Seja as dos outros em mim, ouvindo e absorvendo somente aquilo que me acrescenta em alguma coisa. As palavras tem todo o poder, mas todo dia me lembro que eu sou o dono delas. Então, eu escolho que palavras darei poder ou não.

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DIA “DAQUELES”? AUTO TERAPIA

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Tô vivendo uma série daqueles dias que nem a gente se suporta e chega até a dar dó de quem tem que suportar. Mas tenho vivido também pequenas insatisfações que justificam dias ruins. Nem sempre tô disposto a sanar essas pequenas insatisfações conversando sobre, daí eu apelo pro que chamo de “terapia alternativa”: meu caderninho do desabafo ou o caderninho da escrito terapia.

São tempos pesados. A grana tá pouca. A sanidade tá por um fio. E o afeto, em boa parte, fica comprometido pelos nervos a flor da pele ou fica só via telas, para quem se isolou sozinho. Na falta de oportunidade, pelo isolamento, ou condições, pela escassez de dinheiro, a gente tenta remediar-se como pode. E para mim, e muita gente, ler e escrever é sempre a melhor fuga ou reencontro consigo mesmo.

Sejamos honestos: nada se compara ao ombro amigo e, muito menos, à ajuda profissional. Tem dias que daria o que não tenho por 30 minutos de terapia. Mas na falta de possibilidade de ambos, bora escrever. Se expressar não é tão difícil e faz toda a diferença depois que terminamos o “ato do desabafo”.

Começo com algo básico, o problema. Então vou descrevendo as sensações, o desconforto. Busco na memória e nos sentimentos as possíveis causas. Depois me auto analiso e avalio se o problema não é algo que eu mesmo criei, uma paranoia minha. Se é o caso, eu tento me aconselhar, porque as respostas sempre estão em nós mesmos, em formas de solucionar isso. Se o problema for externo, aí está acima de mim e trabalho meu psicólogo pra aceitar isso.

É óbvio que tudo não termina depois desse ritual simples. Afinal, sou um ser humano e tenho complexidades e relutâncias com mudança, como qualquer pessoa. Mas a verdade é que, após identificar tudo a gente já assimila que tem de mudar e o que tem de mudar. Não me resolve a vida, confesso. Mas me abre os olhos. Agora licença que meu caderninho tá esperando pra mais uma terapiazinha.

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Iniciei, alguns dias atrás, um canal no youtube, o Momento LGBTQ. Assista ao 1º vídeo, se inscreva e saiba mais sobre no player abaixo:

ALGUÉM ME DESLIGA, POR FAVOR

Gif via Google

Tem vezes que meu cérebro não descansa e, nem mesmo dormindo 6h (meu limite aceitável) por dia, não sinto que depois do sono descansei. Sempre vou deitar pensando no que preciso fazer no dia seguinte. Por um lado é maravilhoso, sei que sou responsável e organizado, modéstia à parte, mas sei que isso me leva a um esgotamento anormal, sem contar no sentimento de insatisfação que eu sinto ao terminar um dia que deixei de fazer uma tarefa ou outra, mesmo sendo algo sem prioridade.

Começo meu dia quase sempre às 8h, isso agora no inverno (na primavera e verão é 6:30 ou 7h). Respondo e-mails, verifico o que tenho de job no dia e o que tem em sites de freelancers pra me inscrever e ter mais jobs, isso enquanto tomo café. Sim, eu não tomo café como parte de um processo do despertar, eu o faço já ligado em 220 volts. Depois disso, checo redes sociais e mensagens. Durante o período de promoção da pré-venda de meu primeiro livro, contatava meu editor todo dia de manhã (porque sou chato, admito). Depois de listar o que preciso fazer pro resto do dia (eu amo fazer listas de tarefas), dou uma pequena geral na casa, ouvindo podcast pra “otimizar meu tempo” consumindo conteúdo relevante.

Passo o almoço tentando relaxar mas já pensando no que precisa ser feito durante a tarde. Tenho dois projetos, mais cliente de social media que me tomam tempo em planejamento e criação de conteúdo. Sem contar os estudos de escrita, autonomia profissional, criação de conteúdo e demais leituras que dou um jeito de inserir na correria da semana.

À noite, após Alef ou eu fazer a janta, curtimos ver algum filme ou série. Como nem sempre temos tempo pra algo longo, pois quase sempre planejamos conteúdo pro dia seguinte (seja pra redes sociais ou algum job e isso nos toma tempo até umas 22 ou 23h), então optamos pelo youtube mesmo. Alef dorme antes de mim e eu fico até umas 2 ou 3h lendo, às vezes também aproveito esse tempo para escrever. Enfim, é tudo muito parado se for descrever, porém meus neurônios fritam. Eu sinto que devo estar sempre produzindo, tanto que revezamos um dia pra cada escolher o filme e eu sempre opto por algo que sei que pode me inspirar a trabalhar ou que posso indicar depois. Isso é meio insano, mas esse sou eu.

Acho que, assim como uma grande quantidade de gente, essa produtividade é uma tentativa excessiva de me ocupar diante de um momento em que estamos todos meio surtados. Me jogo em produzir e me sentir útil. Também, nesse período, tenho dito sim a todos os projetos que acredito serem bons pra mim e que creio dar conta. Sendo assim, quando termino algo e entrego um job já tenho algo na fila para que não fique ocioso.

Tem dias, em não são poucos, em que eu penso “alguém me desliga, por favor”. Só que eu sei que meu rendimento depende de mim e se ficar parado vou começar a noiar com as notícias da pandemia, a política nacional, as catástrofes naturais etc. E deixar minha mente seguir esse caminho seria algo totalmente paralizante pra mim, me conheço e sei disso. Então, sigo produzindo o máximo que posso, criando mil e um projetos, escrevendo horas por dia e dormindo o básico para enlouquecer feliz e de um jeito proveitoso.

Se tu és do time hiper produtividade e vive acelerado e é ok com isso, apenas seja feliz nesse ritmo. Agora se tu és dos mais relax ou da leva que ainda nem se habituou a qualquer tipo de ritmo ou rotina durante o isolamente, sinta-se bem também. Ninguém tem obrigação alguma de ser desta ou daquela maneira. A vida não tem uma cartilha de boa conduta ser seguida. Segue teu tempo e aproveita ele como tu podes. Bem, acho que por hoje chega. É domingo e vou sair desse notebook para relaxar como um ser humano normal, ou quase.

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TEM DIAS QUE A GENTE TRANSBORDA

Gratidão 💟

Esta terça-feira foi um dia diferente, muito além de qualquer outro dia ou expectativa criada para um dia que já começa com o selo de dia comum, a terça-feira. Mas a vida é um clichezão, ou seja, uma bela caixinha de surpresas.

Comecei meu dia com saudade de amigos, família, vó, mãe, irmãos, primas, tudo e todos pareciam vir em minha memória fazendo parte de uma leve pontada de tristeza que me deixou de mau humor. O clima frio e chuvoso também não ajuda muito a gente a olhar as coisas pelo lado positivo de que estou em isolamento. Posso me dar ao luxo de estar em isolamento. Além disso, estou ao lado de um homem que amo e me ama. Enfim, sou privilegiado, sei disso, porém isso não me isenta de momenos de tristeza ou dor.

Então, me permiti olhar pra minha tristeza com carinho. Me permiti apenas viver meu dia ruim. Escrevi um pouco logo após o almoço. Escrevi num caderninho, que tenho sem pretensões de publicar os textos ali registrados (meu caderno de escrito terapia), aquilo que me incomodava, meu descontentamento comigo mesmo por me sentir mal. Em instantes lotei uma folha e me resolvi um pouco com meus sentimentos. Foi libertador, como a escrita me é desde a adolescência.

Pouco depois peguei no sono. Um sono leve, que não durou muito. Após acordar, segui meu dia. Me senti menos pior, porém ainda sentia o dia arrastado e a sensação de que não era meu melhor momento e isso era tudo. Tudo que eu tinha e que eu podia ter até então.

Algumas horas se passaram com algumas distrações. Páginas de livros, vídeos no youtube, café, sanduíche, nada que buscasse me trazer uma nova emoção. Já estava entregue a esse dia sem surpresas. Mas a vida tem dessas de fazer o mundo girar e nossa energia mudar com uma boa nova. Então, no instagram, fui marcado numa foto nova da editora Flyve, responsável pela publicação de meu 1° livro, Todo Amor Que Nunca Te Dei. Essa foto fez toda diferença em minha vida e o que ela comunicou faz toda a diferença em minha carreira.

Em uma arte simples temos a capa de meu livro e uma faixa vermelha com o comunicado que diz que o livro digital ultrapassou 1500 downloads na Amazon. Mil e quinhentos é um número muito significativo para um novo autor. Nosso país é um país de poucos leitores. Um livro com boa tiragem inicial tem de três a cinco mil cópias. Ter alcançado esse número e ver meu livro na trigésima posição da categoria Romance Gay, foi além de toda e qualquer expectativa.

Transbordei. Transbordei realização. Transbordei a alegria de ver bons frutos de minha dedicação como escritor e produtor de conteúdo LGBTQ+. Também transbordei porque sei que devo isso a uma linda rede de apoio da comunidade LGBTQ, que vai além dos shades e visões negativas as quais às vezes nos apegamos e ficamos com um pé atrás. Então, percebi que transbordava de ser quem sou e do apoio de gente que luta todo dia pra ser quem é sem medo.

Gratidão a todos que transbordam isso juntxs.

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